“Todos os problemas da humanidade surgem de uma só causa: a incapacidade do homem de se sentar em silêncio em uma sala sozinho.” Blaise Pascal
Há uma palavra chave nessa frase.
Sozinho.
Na cultura moderna, solidão e tédio são sinônimos.
Estar sozinho é chato.
Deprimente.
Deve haver algo de errado com você.
Isso ocorre por um problema linguístico.
Infelizmente o português só possui a palavra ‘solidão’.
Não temos a palavra ‘solitude’.
Algumas pessoas a usam hoje, mas ela vem do inglês.
Em inglês, há uma diferença clara entre ‘loneliness’ e ‘solitude’.
‘Loneliness’ é o que entendemos por ‘solidão’.
Algo indesejável.
Objetivamente negativo.
Já ‘solitude’ é o contrário.
É a solidão voluntária.
O escolher ficar sozinho por gostar disso.
Se temos uma cultura que rejeita essa ideia, é por um motivo:
Dificilmente ficamos realmente sozinhos hoje em dia.
Estamos praticamente sempre conectados à internet.
Recebendo estímulos constantes.
Vídeos curtos, mensagens, memes, notícias, gente rebolando etc.
Essa é a realidade de muitos há anos.
O problema disso: neuroplasticidade.
Nosso cérebro se reorganiza para aprender novos comportamentos.
Se fazemos algo várias vezes, ele entende que é importante fazê-lo.
Assim, ajusta a organização neural para incorporar o comportamento.
Em outras palavras:
Estamos há anos ensinando nossos cérebros a buscarem estímulos sem parar.
O resultado disso é um cérebro que não consegue focar.
Se pergunte o que seria mais fácil para a maioria hoje:
Ler um livro ou ver vídeos no TikTok?
Nem é preciso responder.
A questão é que ter um cérebro assim traz consequências.
Como perfeitamente descreve a educadora sueca Inger Enkvist:
“Alguns jovens se acostumaram a nunca estarem sozinhos, e desenvolveram uma dependência extrema de seus amigos, algo que diminui sua concentração no estudo. Com o telefone e conectados à internet permanentemente, estão sempre disponíveis para os amigos, o que leva a uma dispersão da concentração, negativa para os esforços importantes. O próprio Goethe costumava dizer que “Es bildet ein Talent sich in der Stille”, isto é, que, para desenvolver seu talento, o jovem deve afastar-se do “ruído do mundo” e do entretenimento pré-fabricado. Precisamente o contrário da tendência atual, na qual os jovens não ficam sós nem em casa, pois estão sempre em contato com os amigos, entretidos e divertidos. Há jovens que mandam entre cinquenta e cem mensagens por dia para os celulares dos amigos. Estão “entretidos” e “divertidos” no sentido de dirigidos a outra meta que não a educação, inacessíveis ao trabalho intelectual, que exige concentração e esforço a longo prazo.” pg. 102 do livro Educação: guia para perplexos
Preste atenção ao final:
“inacessíveis ao trabalho intelectual, que exige concentração e esforço a longo prazo.”
Por isso aprender demanda solidão (solitude).
Porque, como diz o ditado francês, « choisir c’est renoncer ».
Escolher é renunciar.
Passar tempo com outro idioma diariamente é uma escolha.
Mas uma escolha que só pode ser feita renunciando mil outras.
Isso não é fácil, principalmente com um cérebro que deseja estímulos.
Mas, novamente, como disse Inger Enkvist:
“Quando um aluno aprende algo, a compreensão não é de modo algum automática, mas consequência de um esforço.” pg. 106
A mesma coisa que causou o problema trará a solução:
Neuroplasticidade.
Seu cérebro foi treinado para querer entretenimento, mas pode ser treinado para amar estudar.
E a forma mais fácil e rápida de fazer isso é estar em ambientes que te direcionem a isso.
Como disse Inger:
“Se não há um entorno humano que sirva de estímulo ao aluno, é difícil que o estudante mantenha o interesse.” pg. 91
Crie esse entorno humano para você.
Foi exatamente o que fiz com a internet durante a pandemia.
E foi exatamente o que me permitiu aprender 4 línguas rápido.
Excluí minhas contas do Instagram, Facebook e X (antigo Twitter).
Troquei todos por Hellotalk e Tandem.
Significa que deixei de acompanhar a vida de todos que conhecia.
Me desinscrevi de todos os canais do YouTube que não tinham a ver com meus objetivos.
Priorizei nativos e professores falantes da língua que estava aprendendo.
Coloquei tudo que podia no idioma.
Músicas, podcasts, sites, vídeos: só no idioma.
Abri mão das notícias, dos memes, das fofocas, das séries, filmes e games do momento.
Eventualmente, meu cérebro se acostumou à falta de estímulo.
Por isso, o estímulo que recebia quando entendia algo no idioma era incrível.
Eu havia recondicionado meu cérebro para ver o contato com a língua como um jogo.
Uma espécie de vídeogame onde, quando entendia, ganhava pontos.
“Pontos” que se convertiam em entender conteúdos interessantes.
Poder fazer amigos de outros países.
Ler livros que me interessavam e não tinham tradução.
Descobrir artistas e músicas incríveis.
Conseguir ajudar melhor meus alunos de inglês da época.
Em todo esse processo, a solitude foi essencial.
Você não precisa excluir tudo como eu fiz.
Mas precisa, pelo menos, reduzir os estímulos.
Só assim seu cérebro será recondicionado.
Para isso, aqui vão alguns conselhos práticos:
Caso não saiba, falei sobre isso em mais detalhes na última live que fiz no YouTube.
Esse é o link:
https://www.youtube.com/live/f6JHOSL72FM?si=DvALEFdBa3oMgv_v
Agora, saia dessa newsletter e se organize para ter mais solitude.
Ela guarda tesouros inimagináveis.
Eu garanto.