09/11/24

Você (provavelmente) tá estudando errado.

E a solução? 2 letras.

Essas duas representam o padrão ouro da neurociência de aprendizagem atualmente.

Elas são:

R e P.

Elas significam Retrieval Practice (literalmente, ”Prática de Recuperação”).

E são o padrão ouro atual por isso:

“Um dos mais contundentes resultados de pesquisa é o poder da recuperação ativa de informações – ou seja, de fazer testes – para fortalecer a memória. Quanto mais esforço exige a recuperação de informações, mais forte é o benefício. […] O ato de recuperar da memória as informações aprendidas traz dois benefícios profundos. Primeiro: revela a você o que você sabe e não sabe, e, portanto, onde concentrar os estudos adicionais para melhorar nas áreas em que você é fraco. Segundo: recordar o que você aprendeu estimula o seu cérebro a reconsolidar a memória, o que fortalece as conexões com o que você já sabe e torna mais fácil de recordar esse conhecimento no futuro. Com efeito, recuperar as informações – testar a si próprio – interrompe o esquecimento.” (Fixe o Conhecimento, pp. 15-16).

Se você está inscrito a essa newsletter, é porque quer aprender outro idioma.

Isso pode dar a impressão de que o conselho do livro não é aplicável.

Porém, veja o que vem logo após:

“Em praticamente todas as áreas de aprendizagem, dominará melhor o assunto quem usa testes como ferramenta para identificar e trazer à tona seus pontos fracos.”

Tendo aprendido 5 idiomas sozinho e passado por muita dificuldade no início, posso afirmar que isso aplica a idiomas também.

Considerando isso, não vamos perder tempo.

Vejamos como usar isso na prática e aprender qualquer idioma mil vezes mais rápido.

Para podermos acelerar nossa aprendizagem com ela, precisamos entender o pré-requisito da aprendizagem de qualquer coisa:

“Toda nova aprendizagem requer uma base de conhecimentos prévios.”

Ou seja, a aprendizagem de qualquer idioma será influenciada pelo que você já viu dele no passado.

Isso quer dizer que sua taxa de progresso dependerá 100% de quanto contato você já teve e tem com ele.

Sendo assim, achamos o primeiro fator necessário para que a prática de recuperação possa ser feita:

1. Contato com o idioma.

É a partir desse contato que nossos ouvidos, olhos, boca e cérebro irão catalogar as características da língua, como:

Fonética, ritmo, sotaque, melodia, movimentos dos lábios e das línguas, intonação, linguagem corporal etc.

Mas há um problema:

Podemos nos acostumar a tudo isso, e ainda assim não entender nada.

Por que?

Porque só vamos entender se tudo isso convergir para um significado dentro de um contexto.

E só iremos identificar os significados se reconhecermos as funções que cada palavra representa naquele idioma.

Mas como fazer isso?

Tradução + comparação.

Infelizmente, a maioria sempre fica apenas na tradução.

Mas isso porque não foram explicados sobre a comparação.

Existe uma diferença fundamental entre as duas:

Traduzir te mostra o equivalente literal na sua língua.

Comparar te mostra o equivalente contextual na sua língua.

Por exemplo, não é necessário muito esforço para aprender que “Meu nome é” em inglês é “My name is”.

Há uma equivalência literal.

Não é preciso analisar contexto, vocabulário, intonação, nada.

Basta traduzir e ponto final.

Agora, uma frase como “Eu acho que vai dar sim” não pode ser traduzida como “I think will give yes”.

Nessa frase, há o conceito de “dar” como possibilidade de algo acontecer, não como entregar algo a alguém.

Aqui, é preciso descobrir qual seria o equivalente nesse mesmo contexto em inglês.

Usando ferramentas como o ChatGPT ou Reverso Context, vamos encontrar:

“I think it’s gonna work out” (literalmente “eu acho que isso vai trabalhar fora”)

“I think it will be fine” (literalmente “eu acho que isso vai ficar bem”)

“I believe it’s possible” (literalmente “eu acredito isso é possível”)

Percebe o problema?

Nenhuma das traduções literais faz sentido em português.

Mas isso não acontece de português para inglês.

Acontece de qualquer idioma para outro idioma.

Existem conceitos que simplesmente não passam.

A questão é que os nativos não nasceram tendo esses conceitos em mente.

Assim como nós não nascemos com os nossos em português.

Então, o que devemos fazer para colocá-los em nossos cérebros?

2. Repetir e intercalar.

Ver as palavras, expressões, gírias etc. com as quais não estamos acostumados várias vezes fará com que nossos cérebros se lembrem delas mais rápido.

Enquanto isso, intercalar, ou seja, variar as interações que temos com o idioma (ver vídeos, ouvir músicas, escrever num diário, falar sozinho etc.) e os assuntos (economia, psicologia, humor, moda, esportes etc.) nos fará ver usos diferentes dessas palavras, o que vai nos dar certeza de como usá-las quando quisermos.

E se você pensar bem, é isso que aconteceu naturalmente com você em português.

Por viver tantos anos com o idioma ao seu redor e de tantas formas diferentes, falando com centenas a milhares de pessoas no decorrer da sua vida e tendo interações diferentes com conteúdos na TV, no computador, no celular etc., você foi exposto a um vocabulário gigantesco.

Essa hiper exposição gerou a confiança que você tem hoje ao falar desde palavras simples à gírias locais.

Tudo isso foi resultado da junção entre repetição e intercalar.

Por isso a importância de colocar o idioma ao seu redor de todas as formas possíveis.

Mudar o idioma do seu celular, computador, TV, relógio, absolutamente tudo.

Mas ainda assim, o contato, a repetição e a intercalação não serão muito úteis se você não fizer a coisa mais importante para conseguir falar outra língua:

3. Ativar.

Resumindo: escrever e falar.

É aqui que a prática de recuperação brilha.

A maioria das pessoas ao redor do mundo sofrem da mesma dificuldade com uma outra língua:

Conseguir entender um pouco, mas não conseguir falar.

O motivo é simples:

Passam muito mais tempo lendo e ouvindo o idioma do que escrevendo e falando.

Isso também se explica facilmente, afinal, por não estarem num país estrangeiro, não têm a necessidade de falar o outro idioma.

Consequentemente, não desenvolvem essa competência.

E é aqui que surge a dúvida mais comum:

“Se eu não tenho com quem falar, como vou melhorar minha fala?”

Quando digo que a solução é falar sozinho, a reação quase automática é:

“Mas como isso vai me ajudar? Não vou errar também? Como vou saber que errei?”

Mais uma vez, o livro Fixe o Conhecimento nos explica por que fazer isso é tão útil:

Tentar resolver um problema antes de alguém nos ensinar a solução conduz a uma melhor aprendizagem, mesmo quando se cometem erros durante a tentativa. […] Testar a si próprio talvez não seja uma proposta atraente para os estudantes, pois exige mais esforço do que reler, mas, como já foi observado, quanto maior o esforço para recuperar a informação, mais ela será retida. Os alunos que realizam testes apresentam melhor compreensão sobre seu progresso do que aqueles que simplesmente releem o material.

“Falar sozinho” é tentar construir o idioma na hora, sem ajuda prévia.

Na prática, é testar sua capacidade de lembrar das palavras, conjugações, preposições, pronúncias etc. naquele instante.

Isso é exatamente o que seu cérebro precisa fazer quando tem que falar com um nativo.

Ou seja, ao tentar falar sozinho você está literalmente colocando seu cérebro no mesmo estado em que ele ficaria ao ter que falar com um nativo.

Isso quer dizer que quanto mais você fizer isso, melhor vai poder falar com nativos quando precisar.

A razão disso é que, de tanto testar a si mesmo, você achará suas fraquezas e treinará seu cérebro e boca para reagirem mais rápido.

Quando digo que você provavelmente tá estudando errado, é disso que falo.

De não ter contato ativo com o idioma.

De não testar a si mesmo continuamente como parte da sua rotina.

De não tentar repetir como o nativo, criar frases, verificar no ChatGPT se está certo ou não, por que etc.

O estudo errado de um idioma é aquele que não melhora todas as suas capacidades no menor tempo possível.

E acabamos de ver por que a prática de recuperação é a melhor forma de aprender.

Sendo assim, te faço a seguinte pergunta:

Seu estudo tem sido assim?

Constantemente ativo?

Tentando repetir, falar…?

Tentando criar?

Se não, a hora de mudá-lo é agora.

E lógico, no início pode haver uma certa fricção.

Até um desconforto.

Mas é exatamente isso que você quer.

Significa que seu cérebro está fazendo coisas que nunca fez.

O que sem dúvida te levará a resultados que você nunca teve.

Tendo dito isso, te convido a terminar de ler essa newsletter e a fazer uma sessão de prática ativa.

Tente falar sozinho se imaginando num contexto específico que seja relevante para você.

Até porque:

“A aprendizagem é mais forte quando é relevante, quando o abstrato se torna concreto e pessoal.

Faça isso e use o ChatGPT para achar seus erros e acertos.

Estabeleça isso como hábito.

Se você o fizer, eu prometo que vai ter um progresso que nunca imaginou ser possível.

Agora é com você, meu amigo.

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Referências:

  • Livro “Fixe o Conhecimento: A Ciência da Aprendizagem Bem-Sucedida”, de Peter C. Brown.
  • Livro “Becoming Fluent: How Cognitive Science Can Help Adults Learn a Foreign Language”, de Richard Roberts e Roger Kreuz.

Quem é Jonatha Koeller?

Sou um poliglota autodidata fluente em 6 idiomas e já a caminho dos próximos. Há 9 anos ajudo pessoas a desbloquear sua capacidade natural de aprender línguas e alcançar a fluência no idioma desejado em questão de meses.

Já trabalhei como mentor de idiomas em empresas como Sony Music, Vale, Globo, Accenture, Scrumlaunch, ajudando desde funcionários da base até CEOs.

Não sei o que você vai achar mais surpreendente: eu ter feito isso tudo, ou ser careca aos 26. De qualquer forma, você pode ser a próxima pessoa que vou ajudar a se tornar fluente, desbloqueando sua capacidade natural de aprender línguas.

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Você vê o que eu sou. O que eu sou é resultado daquilo que faço repetidamente. Excelência não é um ato. .É um hábito.